Ousadia chinesa, reação brasileira • OEconomista

Autor: O Economista – 30 de setembro de 2006

Fabricantes de máquinas, preocupados com a invasão de produtos da China, tentam lucrar no novo ambiente de negócios

ALBERTO MAWAKDIYE

Exaustos com o que classificam de “verdadeira invasão chinesa do mercado brasileiro de bens de capital” – e, de fato, não se passa um dia sem que uma máquina made in China seja desembarcada em algum porto do país –, os fabricantes brasileiros resolveram contra-atacar. E no mesmo estilo comercialmente belicoso do seu rival do Oriente.

Assim, nada de montar caravanas rumo a Brasília, para implorar às autoridades do comércio providências tarifárias ou reservas de mercado – isso já foi tentado, e, além do mais, o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva avisou que não vê com maus olhos a importação de máquinas, “pois elas agregam tecnologia à nossa indústria e permitem o aumento da produção”.

A idéia é fazer os chineses provarem do seu próprio remédio econômico. Eles estão ocupando fatias cada vez maiores do nosso mercado? Pois vamos compensar essa perda ocupando fatias cada vez maiores do mercado deles.

Das palavras à ação: desde junho está funcionando em Pequim, a milenar capital chinesa, um escritório de representação da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), com o único objetivo de mapear os eventuais clientes e orientar os produtores brasileiros sobre como vender para eles.

“Toda ameaça traz embutida uma oportunidade”, acredita o presidente da Abimaq, Newton de Mello. “Há hoje um enorme desequilíbrio entre o volume de bens de capital que vendemos para os chineses e o que compramos deles. A China também é um grande mercado importador, e precisamos apenas saber como entrar ali”, diz Mello.

É recente, diga-se de passagem, tal desequilíbrio. Até 2003, o Brasil ainda conseguia manter com a China uma certa paridade comercial nessa área, e mesmo algum superávit. Em 2001, por exemplo, o Brasil vendeu o equivalente a US$ 79,6 milhões para os chineses e importou US$ 79,1 milhões. Desde então, a balança virou para o lado chinês e parece pender cada vez mais nesse sentido. Entre 2003 e 2005, a China abocanhou uma participação de 6,5% do fornecimento de máquinas para o Brasil. No ano passado, seus tornos, fresadoras, prensas, guinchos, injetoras de plástico e carros de transporte responderam por 20% a 40% do consumo brasileiro. E a previsão é que esse patamar supere os 50% neste ano.

Mas nenhuma exportação de equipamentos da China para o Brasil aumentou tanto como a dos fornos industriais. Enquanto as vendas chinesas desse item cresceram 89% na média mundial, entre 2004 e 2005, para o Brasil a alta foi de inacreditáveis 11.271%.

Os chineses lograram até mesmo a façanha de reduzir a participação financeira norte-americana no mercado brasileiro de bens de capital, que caiu na proporção equivalente à do avanço chinês: pouco mais de 6%. Com tudo isso, a China já conseguiu posicionar-se entre os principais vendedores de máquinas para o país e hoje morde os calcanhares dos Estados Unidos, Alemanha, Japão, Itália e França, líderes históricos do segmento.

Diante de todo esse avanço, a reação do Brasil tem sido tímida. Vendeu para a China apenas US$ 225 milhões no ano passado, consubstanciados em equipamentos para fundição, mineração, agricultura, máquinas pesadas e para couro, além de componentes. “É um volume importante, mas que empalidece não só na comparação com o que estamos importando deles, mas principalmente com o que eles vêm comprando no mundo”, observa a economista Patrícia Marrone, autora do livro China e seu Efeito sobre a Indústria de Máquinas e Equipamentos no Brasil, escrito sob encomenda para a Abimaq para ancorar a investida brasileira naquele país.

De fato, embora os chineses tenham importado em 2005 nada menos do que US$ 53 bilhões em máquinas, principalmente da Alemanha, Itália e Japão, a participação brasileira, nesse total, foi de apenas 0,42%. Nas trocas comerciais de bens de capital com o mundo, a China é largamente deficitária. E deve continuar assim, pois estão previstos fortes investimentos nos próximos anos no agronegócio, na infra-estrutura e na indústria de couro. O Brasil tem equipamentos para todos esses setores e muitos outros.

A estratégia da Abimaq, que inclui 27 segmentos, é, portanto, factível, mesmo porque o Brasil tem experiência e tradição nos negócios de exportação. Há décadas o país vende máquinas para o exterior, e as receitas externas vêm crescendo substancialmente de alguns anos para cá – elas saltaram de US$ 4,9 bilhões em 2003 para US$ 8,6 bilhões em 2005, por exemplo. Hoje, a exportação responde por cerca de 40% do faturamento do setor. Os países compradores incluem mercados exigentes, como o europeu e o norte-americano.

Câmbio

Não é difícil explicar as causas do avanço chinês sobre o mercado brasileiro de máquinas. A razão imediata é, obviamente, a taxa de câmbio, já que o real está valorizado há um bom tempo. Isso está beneficiando os importadores – e os chineses são mestres em produzir artigos quase que a preço de custo, principalmente por causa de sua baixíssima despesa com mão-de-obra. Hoje, algumas máquinas chinesas chegam a custar cerca de 30% do valor estipulado para similares brasileiras.

O câmbio, evidentemente, não explica tudo – basta um cálculo simples para verificar que, mesmo com uma repentina megadesvalorização do real, os equipamentos comprados da China continuariam a custar menos que os fabricados no Brasil.

“A verdade é que as máquinas nacionais apresentam maior qualidade tecnológica que as chinesas, mas perdem de longe no preço”, afirma Thomas Lee, presidente do Grupo Megga e da Associação Brasileira dos Importadores de Máquinas e Equipamentos Industriais (Abimei). “Para o empresário que precisa apenas de uma máquina confiável e barata, mas não com muita tecnologia, não há muito o que pensar”, diz ele.

Segundo Lee, essa relativa falta de competitividade vem afetando, igualmente, o mercado de máquinas mais sofisticadas, pois o Brasil, que sempre importou pequenas quantidades de equipamentos de ponta dos países industrialmente avançados, incrementou essas compras nos últimos anos. O problema seria mais estrutural do que cambial.

De fato, somando-se a participação do maquinário chinês – de menor conteúdo tecnológico – com a presença tradicional, mas hoje mais forte, dos refinados equipamentos europeus, norte-americanos e japoneses, os importados já ocupam cerca de 40% do mercado. O que significa que o Brasil pode até exportar muitas máquinas (operação que provavelmente será, neste ano, um tanto prejudicada pelo câmbio, segundo a Abimaq), mas também vem se tornando um grande importador.

“Na realidade, o Brasil nunca foi, historicamente, muito competitivo na área de bens de capital e só conseguiu montar sua indústria às custas de muita proteção, uma atitude que se enrijeceu a partir da década de 1960”, lembra Bruno Araújo, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). “Quando as barreiras foram parcialmente removidas, três décadas depois, a inserção do país na globalização era inevitável”, conclui.

Araújo acredita que, de qualquer forma, a abertura do mercado tenha dado maior dinamismo à indústria brasileira. Antes, quando uma empresa não podia pagar as elevadas taxas de importação nem arcar com os altos preços das máquinas produzidas por multinacionais implantadas no país, tinha de se conformar em adquirir similares nacionais que tampouco eram baratas e apresentavam qualidade apenas razoável.

A reserva de mercado chegou ao ponto de, nos anos 1970, excluir até mesmo a importação de equipamentos eletrônicos, com base na Lei de Informática de então. Umas poucas empresas foram autorizadas a desenvolver e produzir, por exemplo, os essenciais comandos numéricos computadorizados (CNCs), que já começavam a se tornar a alma dos equipamentos mecânicos. Obviamente, não davam conta da demanda.

“A reserva de mercado nos encerrou por décadas no atraso tecnológico”, sentencia Mario Sanz Anguita, gerente-geral da Sartiec, uma das maiores importadoras do país, e estudioso do assunto. “E como fomos obrigados a permanecer por muito tempo fornecendo principalmente para o mercado interno, tampouco obtivemos uma grande escala de produção, que poderia com o tempo financiar a recuperação tecnológica.”

Segundo Anguita, essa falta de escala de produção permanece até hoje como uma deficiência do setor – e é outro fator que vem pavimentando a expansão chinesa. Ele diz que uma empresa como a norte-americana Haas, que não tem mais de 15 anos de vida, já fabrica 1,1 mil máquinas operatrizes por mês. É uma quantidade que mesmo as maiores indústrias brasileiras levariam um ano para produzir.

Na comparação com a década de 1970, a liberdade do mercado parece hoje quase absoluta. Os empresários podem pagar por uma máquina com similar nacional uma média de 14% de imposto de importação (considerado um dos mais altos do mundo), além dos tributos federais e tarifas portuárias. Já por um equipamento que não tem similar produzido no Brasil, as taxas flutuam em torno de 3%. E há ainda milhares de “exceções” – máquinas com similares nacionais, mas diferenciadas em algum aspecto operacional, por exemplo –, pelas quais o importador pode pagar uma tarifa especial (os chamados “ex-tarifários”).

O processo de abertura, claro, não foi indolor. As fabricantes nacionais, que respondem por grande parte das máquinas seriadas e de médio conteúdo tecnológico, foram desde o princípio acuadas pela liberalização, e muitas delas tiveram de fechar as portas no transcorrer da década de 1990. Com o encerramento do ciclo de expansão e modernização de setores-chave (como a indústria automotiva e a siderurgia), no fim dessa década, a situação quase se estabilizou, mas está voltando a se tornar instável com o avanço chinês.

O mais grave é que as empresas nacionais – desafiadas agora no seu campo de luta favorito, o preço – compõem, em termos quantitativos, uma boa parte da indústria de bens de capital instalada no país. Na maioria de porte modesto (embora haja algumas gigantes), essas empresas perfazem 80% dos quase 4 mil fabricantes existentes no mercado – o restante é constituído por multinacionais, principalmente alemãs, japonesas e norte-americanas, que foram implantadas no Brasil, a partir dos anos 1960, para aproveitar o forte ciclo de industrialização daquele período.

As companhias estrangeiras conseguiram, desde o começo, escapar com certa facilidade da concorrência internacional provocada pela abertura, pois centraram sua produção em máquinas por encomenda – mais caras e com maior conteúdo tecnológico –, voltadas para as indústrias de ponta.

Além do mais, foram orientadas pelas estratégias operacionais estabelecidas por suas matrizes, tornando-se, de fato, as grandes responsáveis pelo crescimento da exportação do setor, de dez anos para cá.

Negócios

O mais desalentador, para a indústria brasileira de máquinas e equipamentos, é que importar bens de capital parece ser, pelo menos neste momento, um ótimo negócio para o conjunto da economia. Há números que apontam nessa direção. No primeiro quadrimestre deste ano, embora as máquinas brasileiras tenham registrado queda de 1,4% nas vendas internas, a previsão do Ipea é que os investimentos na indústria, construção civil e infra-estrutura cresçam 5,8% até o fim do ano.

Assim, ao mesmo tempo que ocorrem demissões entre as fabricantes de máquinas, o nível de emprego sobe, por exemplo, na indústria metalúrgica, que é a maior consumidora de bens de capital. “A quantidade de postos de trabalho na metalurgia cresceu 0,2% no primeiro quadrimestre deste ano, em comparação com o mesmo período de 2005”, resume Valter Sanches, secretário de organização da Confederação Nacional dos Metalúrgicos, ligada à Central Única dos Trabalhadores (CUT). “Essa expansão se deve, obviamente, aos investimentos que estão sendo feitos no parque produtivo”, diz ele.

Há setores cujo recente crescimento está praticamente todo ancorado na compra de máquinas importadas. Um deles é o têxtil, em que o volume de exportação cresceu 4% em 2005. Centenas de máquinas chinesas foram desembarcadas nos últimos meses no Brasil, para ser montadas nas malharias e confecções espalhadas por todo o país.

“O único modo de conquistarmos maior espaço na exportação é com uma produção moderna e menos custosa”, explica Sylvio Napoli, coordenador da área de infra-estrutura e tecnologia da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit). “Infelizmente, não há muitas máquinas brasileiras que nos permitam alcançar esse objetivo”, conclui.

Os equipamentos não chegam às indústrias têxteis apenas da China. As empresas mais capitalizadas também estão comprando na França e na Itália, o que é perfeitamente compreensível. Enquanto um tear europeu é capaz de executar 1,2 mil “passadas” por minuto, o equivalente brasileiro tem uma capacidade média de apenas 150.

Outro segmento que vem se apoiando fortemente na importação de equipamentos é o de plástico. “Para nós, é indiferente adquirir injetoras no Brasil ou na China. Compramos de quem vende mais barato”, afirma o presidente da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast), Merheg Cachum. “Mas sabemos do risco que a importação indiscriminada representa. Se o Brasil, eventualmente, parar de fabricar injetoras, ficaremos à mercê da tecnologia estrangeira, que pode mudar a qualquer momento e nos obrigar a acompanhá-la, talvez sem condições para tanto.”

Na verdade, é possível que o panorama apontado por Cachum – a desnacionalização do parque de bens de capital brasileiro – já tenha deixado, em parte, de ser uma virtualidade. Não somente devido à substituição de equipamentos nacionais pelos estrangeiros, mas também pelo que começa a ser colocado, cada vez mais, dentro das máquinas produzidas no país. Uma conseqüência natural – e funesta – do aumento das importações é que um número crescente de fabricantes está deixando de produzir algumas peças de máquina para comprá-las no exterior, de modo a tornar seus equipamentos mais modernos e competitivos, inclusive no mercado internacional.

É o caso da Romi, uma tradicional produtora brasileira de máquinas-ferramenta seriadas da região paulista de Campinas, fundada na década de 1940, e que era, até meados deste ano, uma das poucas que fabricavam os próprios CNCs. Hoje, ela compra esses componentes da Siemens e da Fanuc, duas grandes multinacionais.

“Não foi uma decisão meramente financeira”, justifica o diretor de comercialização da empresa, Hiçao Misawa. “Vendemos máquinas para todos os cantos do planeta, mas alguns mercados nos escapavam pela impossibilidade de prestarmos assistência técnica adequada na área de CNC. Com os fornecidos por multinacionais, esse obstáculo deixa de existir.”

A Sandretto, multinacional fabricante de injetoras de plástico de origem italiana, também elevou de 10% para 20% a importação de componentes, o que reduziu em 6% os custos de produção.

Já a norte-americana Caterpillar, do segmento de tratores e equipamentos agrícolas, está economizando 30% com as peças que traz da Europa, o que permitirá à empresa aumentar o volume de produção e as exportações. Pertencente ao mesmo setor, a também norte-americana Case New Holland deve elevar igualmente a importação de componentes, no caso, da Argentina.

A internacionalização nessa área chegou a tal ponto que várias multinacionais estão trazendo, para atender o mercado interno, máquinas fabricadas inteiramente por filiais de outros países, como é o caso da Eaton Fluid Power, que produz acionamentos para equipamentos agrícolas. Perto de 20% das vendas da empresa já são de material estrangeiro.

Muitas companhias brasileiras também passaram a importar máquinas para comercializar no Brasil, como representantes. A paulistana Ergomat, fabricante de tornos e centros de usinagem, que se desgarrou em 1997 de uma antiga matriz alemã, hoje representa no Brasil a japonesa Star Micronics e a norte-americana Hardinge Bridgeport, para as quais também presta assistência técnica.

“São equipamentos que complementam nossa linha de produção”, explica Alfredo Ferrari, diretor da empresa. “A globalização tornou o ambiente de negócios mais difícil, sem dúvida, mas abriu igualmente oportunidades. Se existe uma demanda no Brasil por máquinas importadas, por que não podemos também lucrar com ela?”

Fonte: Revista Problemas Brasileiros, nº 377 – set/out 2006 – ano 44

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